quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

À Imagem e Semelhança

Ele olhava para a tela do computador e sorria. Alexandre, ou Alex como preferia ser chamado, era programador e tinha terminado seu incrível projeto de inteligência artificial. Programara por seis meses, e ali estava o fruto de seu trabalho. Decidiu tirar férias de um mês para aproveitar seu projeto, curtir o que tinha feito e, claro, se divertir.

Primeiro ficou analisando o que tinha feito. Passou as primeiras horas inerte na frente do computador, sem saber o que pensar e admirado com o que fizera. Fizera seres inteligentes, que num micro-cosmo, reagiam de forma interessantíssima. Colocou seres em um ambiente selvagem, onde tinham que caçar, pescar e colher para sobreviverem, em poucos dias tais seres aprenderam a fazer fogo, se aqueciam e aqueciam seus alimentos. Decidiu chamá-los de Prometheus, fazendo uma alusão ao homem que roubou o fogo do monte olimpo. Apesar de estar maravilhado, Alex tinha marcado de sair com os amigos. Era noite de farra!

Encontraram-se num bar, perto do centro, muito bem frequentado. Mulheres lindas. Mas naquela noite tinha uma especial, que roubara o brilho de todas as outras do recinto. Como nunca tinha a visto por lá antes? Desinibido como era, avançou em passos largos e logo pôs-se a tagarelar com a jovem, cabelos negros, pele branca, olhos azuis, e uma tatoagem quase imperceptível na parte da frente do ombro. Nada lhe escapara daquela mulher naquela noite. Descobriu que a afinidade entre os dois era maior que apenas apreço físico - sim, ela também estava atraída por ele - eles gostavam de jazz, ambos já tinham lido todos os livros de Paulo Coelho e odiavam sorvete de kiwi.

Chegou em casa ainda atordoado pela incrível mulher que conhecera, e já ia dormir quando se lembrou do seu computador ligado, e resolveu dar uma olhada no que se passava naquele pequeno mundo que criara. Ficou surpreso ao perceber que já existiam cidades imensas, e que a organização cultural dos Prometheus tinha chegado num nível esplendido, eram todos seres interessantíssimos. Um deles porém lhe chamara a atenção. Um jovem estudante de computação, lhe lembrava os tempos que ainda estava na faculdade, viu que o pequeno se chamava Ulisses. Decidiu acompanhar aquela pequena odisséia.

Logo de cara percebeu o quando Ulisses era introvertido. Incomodado com isso, Alex logo colocou no caminho do pequeno uma fêmea. Queria ver sua mini-novela pegar fogo. Quão cruel fora Alex ao fazer isso. Mas ele não percebeu seu erro, tampouco o reparou, já passava das 6 da manha, e ele estava com sono.

Acordou no sabado bem disposto, logo ligou para a mulher que conhecera no dia anterior, Sara.
Convidou-a para sair. Dificilmente ficava tão afoito, mas dessa vez, ele estava realmente apaixonado. Sara aceitou o convite. Alex não cabia em si de contente. Saiu e deixou novamente o computador ligado, sem sequer se interessar pelo que se passava no seu micro-cosmo.

Foi feliz ao encontro daquela musa. Por que estava acontecendo assim? Ele nunca se interessava por mulher nenhuma daquela forma, por que ficara tão apaixonado de uma hora pra outra? Vai saber os motivos do destino...
Quando a viu, seu coração palpitou mais forte, ele proprio não sabia o que estava acontecendo, como uma mulher daquela tinha lhe feito tanto a cabeça. Cumprimentou-a com um abraço. Logo estavam num papo interessantíssimo que perdurou por pelo menos umas duas horas. O encontro tinha sido num mirante, e à tarde. Enquanto o sol se punha, conversavam sobre coisas mais banais, conversavam sobre a vida. Ele beijou-a.
Foi do céu ao inferno no momento que ela fugiu do seu beijo. Ele nao entendeu.
Ela apenas disse que não rolava, e que tinha achado aquele cara um cara muito interessante, por isso foi deixando rolar... mas que tinha acabado um relacionamento muito dificil, e todas aquelas conversas que nós já conhecemos.

O resultado caro leitor, foi um homem que voltava pra casa abatido. Encostou na cama e deixou sua roupa no chão como sempre fazia. O banho frio serviu para lhe acalmar. Fez um pouco de chá e sentou-se na frente do computador com a caneca fumegante. Esperava ver o que acontecia com Ulisses e sua bela Penélope. Ficou consternado ao perceber que o seu pequeno Prometheu se matara. Se matara por causa daquela mulher. Não se sentiu nem um pouco culpado de ter causado a morte de um ser imaginario, um dado de um programa. Deu um descanso para seu computador e desligou-o, antes de sentar na cama e ficar longas horas pensando naquela mulher que conhecera.

Sara tirara seu chão. Dera-lhe o céu e o inferno em uma só dose. Alex apenas fitava as estrelas a noite esperando que algum dia pudesse entender o que tinha se passado em seu coração.

Do outro lado da tela, um jovem soprava sua caneca de leite quente enquanto observava aquele pequeno ser a contemplar as estrelas. Quão tolo era ele. Quão inocente fora. Tinha sido divertido criar Sara. Tudo aquilo tinha sido bem divertido. Pegou o casaco, as chaves do carro e saiu para a farra. A noite estava apenas começando...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Constelações

Olho para o céu. Percebo a zênite -termo que eu desconhecia até anteontem e que descobri significar acima de nós no céu - a constelação de Órion, imponente. Pena que as nuvens cubram as estrelas, pena que as luzes da cidade ofusquem as estrelas, pena que as pessoas tenham se esquecido das estrelas.

Durante séculos, as estrelas guiavam os intrépidos viajantes pelos mares e terras nunca dantes desbravados. Ainda muitas histórias foram criadas para explicar a origem das estrelas, como os mitos de Perseu e Andromeda, que já embalaram os sonhos de muitas crianças. Ainda hoje as estrelas e o cosmos fascinam as crianças, que olham deslubradas para as constelações e tentam entender como tudo aquilo está lá, não é a toa que a profissão de astronauta é uma das campeãs entre os pequenos.

Mas nós esquecemos, esquecemos de nossos mitos e de nossas guias, alguns cidadãos passam simplesmente a vida sem ter olhado para o céu e contemplado uma estrela sequer, sequer perguntado como ela teria ido parar lá, as estrelas são o caminho do conhecimento, é uma das primeiras questões insolúveis descobertas por nós, mas esquecemos disso, muito fácil.

Às vezes me perco nas horas contemplando o céu, simplesmente por fazê-lo.
Descobrimos muitas coisas: que a lua mostra sempre a mesma face, que as cintilações são apenas mudanças atmosféricas, que a cor vermelha das estrelas significa que ela está se afastando... Mas ainda não aprendemos a sentar e contemplar as estrelas.

Renato Russo disse uma vez que o 'infinito é realmente um dos deuses mais lindos', mas nada seria o infinito sem o brilho das constelações.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Luto

Eu luto. Primeira pessoa do presente do indicativo do verbo lutar. Não a batalha cotidiana, porque dessa já estamos cansados de filosofar, mas a luta de punhos cerrados, a barreira que põe os humanos entre a animalização e a superioridade intelectual.

Para muitos a briga é apenas uma forma selvagem de reação, para mim se torna um estilo de vida.

Não quero humilhar alguém mais fraco, não quero causar dor em quem não se dispõe, muito pelo contrário... A dor te limpa, ela te mostra que você é apenas um humano, um mortal, a luta te mostra a vulnerabilidade, te mostra a fraqueza, por outro lado ela te mostra a força, a perseverança em resistir. Bater em alguem ou alguma coisa é, e sempre será, a melhor maneira de exteriorizar sua raiva.

Muitos acham tolice, muitos acham loucura, o certo é que a luta te aproxima da sua verdadeira essencia, o suor te mostra sua limitação, o cansaço te põe no chão como o inimigo mais forte do planeta, entretanto, não tem nariz quebrado nesse mundo que me impeça de ir para um outro 'fight'.

Luto, seja com luvas, seja sem luvas, seja com um saco de pancadas ou com outra pessoa, protegido ou não. E no fim da luta, apenas um aperto de mão, continuam amigos os participantes, e ninguem apanha e bate, mas os dois saem maiores do que entraram, saem gigantes, ansiosos para o próximo combate.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A Morte

Estou a fitá-la nos olhos.
Ela se afasta conforme chego para tocá-la, não por medo, apenas adiando o inevitável.
Cada minuto me põe mais perto do ultimo suspiro.

Tem que ser assim, ela me faz abraçar cada centelha de luz, seus olhos cinzentos me fazem procurar a beleza da vida, me fazem olhar para o infinito do céu a noite e procurar o infinito dentro de mim. Ao mesmo tempo, ela me facina, sedutora como uma sereia.

Como o infinito dá paz! Ele dilui seus sofrimentos. É como beber um café muito amargo, mas que dissolvido no mar, não teria sabor nenhum. Somente o infinito supera a morte.

Como nossas vidas ficam mediocres perante as grandiosidades! Que é nossa vida quando comparada ao infinito? Onde está a grandiosidade humana quando a Morte colhe suas almas?
Nos imaginamos donos do destino, da verdade, somos humanos perdidos, achando que temos algum domínio sob alguma coisa. Nosso controle aparente é apenas para acalmar nosso desespero interior, desespero de não saber nada, não ter poder sobre nada, aquela angústia de impotência humana.

Hoje a noite antes de dormir, vou contemplar o céu pela ultima vez, vou me lembrar do infinito e da minha pequenez. Se eu me encontrar com a morte, o esquecimento eterno me abençoará com a paz, se não for dessa noite, pelo menos eu tenho um outro dia para escrever um novo texto. De qualquer maneira estou feliz.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Nihil(ismo)

Qual é o sentido das coisas quando as coisas perdem o sentido?

As perguntas não têm respostas, isso nós já sabemos, as verdades há muito foram banidas desse universo. Nossos sentidos são tão falhos, nossas mentes tão fechadas...
Não, não estou de forma alguma deprimido. Ainda acho que a vida é bela... e sem sentido.

No final desse texto, vais ver que é apenas um vazio de palavras, assim como qualquer texto, e como ao final de qualquer leitura de revista, ou livro, vais terminar de ler e sentar-se para um bate papo virtual, ou para assistir TV, vais pensar em coisas mais mundanas, deixando esses assuntos que transcendem para os filósofos ou religiosos.

Tua vida tem sentido, oh cidadão comum! O sentido comum das coisas, o sentido da perpetuação da espécie, mesmo que seja um sentido alheio ao verdadeiro sentido: de não ter sentido!

Proponho-te então a pensar na verdadeira motivação da existência. Desde já te digo que são pensamentos perigosos, e vais te decepcionar muito no caminho.
Qual a razão de trabalhar tanto, de consumir tanto, de fazer coisas que não gostamos? Qual a finalidade de tudo isso? Não sabemos nem ao menos para onde vamos! Céu? Inferno? Bahh!
Alguns dizem que a vida tem valor quando tem uma finalidade, um sentido. Eu penso o contrário, os sentidos são para camuflar insatisfações, tentamos viver o amanhã para receber o último pagamento do mês e comprar aquele carro do ano. A partir do momento que viver sem um destino, como um mochileiro, um viajante , percebe a satisfação e a eternidade de cada momento, aceitando que a vida não tem sentido, mas que isso não tira a beleza da vida.

Não sei qual a motivação desse texto, mas espero que tenham gostado dele. Carpe Diem.

sábado, 10 de janeiro de 2009

O amor romantico

O romantismo surge num período conturbado da história, a revolução francesa, e marca a literatura com romances de idealização da figura feminina, e a tentativa de escapar das dores através da criação de uma imagem de mundo.
A literatura, assim como a televisão e toda a mídia, é responsável pela criação da infelicidade humana, responsáveis por mitificar os relacionamentos amorosos, onde a felicidade se baseia em outro ser humano - qual felicidade é verdadeira quando depende de outra pessoa?
São filmes e novelas que mostram um romantismo e uma melação excessiva, e ainda por cima mostra a nós homens o lado errado da conquista, os mais inocentes acreditam que a entrega total e a revelação do sentimento é o caminho para um romance, uma historia com final feliz e tudo.
A televisão criou o amor fantasiado, assim como o amor materno foi 'criado' no fim do século XVIII, e o amor paterno vem sendo moldado por novelas que mostram pais separados cada vez mais unidos com suas crias, parecendo mais dois irmãos que realmente pai e filho se olharmos como era a relação entre ambos no século passado.
Essa mudança de comportamento da sociedade não é de fato má, entretanto tem que ser vista como realmente é: uma máscara para as relações cotidianas de reprodução e proteção da prole, o amor romântico é uma máscara para a 'dança do acasalamento' humana, o descuidado com essas fantasias muitas vezes traz angustia e infelicidade.
Quem nunca sonhou com um amor para toda a vida, achar alguém ideal, e não se imaginou sentado com essa pessoa vendo o pôr-do-sol? Não que sejam coisas impossíveis, achar alguém pra amar, mas devemos nos lembrar que o ser humano é cheio de defeitos, lembrar que por baixo da pele do outro também tem músculos, sangue, muco e outras sujeiras, somos todos mortais. Quando procuramos alguém ideal, ou idealizamos uma pessoa, compramos nossa insatisfação, passamos a depender de um amor inventado. Inventado por nós para ser o modelo do que achamos que é a felicidade, do que nos foi ensinado na TV e nos contos de fadas.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A certeza é algo que realmente me incomoda. Têm pessoas com tanta certeza das coisas, tão sábias, que eu, mesmo lendo e refletindo muito, não consigo chegar à metade da sapiencia delas. Ou são eles os cegos, ou sou eu. Não ouso dizer nem que são minhas idéias as corretas, e isso já me põe um patamar inferior com relação a essa pessoa, que retórica!

Fico a imaginar o que se passa na cabeça desses homens, o que lhes leva crer que a verdade é tão clara, eu daria meu reino para conhecer as verdades desse mundo!

Uma vida cética é muitas vezes icomoda, por outras é gratificante, viver nas incertezas nos leva a aprofundar conhecimentos, ir por mares nunca dantes navegados. Que seria de nós hoje, se alguem não tivesse duvidado da Teoria Geocentrica? Ou mesmo questionado o poder dos reis? A verdade é confortante, mas pode não ser o melhor caminho, ela nos impede de procurar. Quando a busca termina, não é porque se encontrou o que procurava, mas porque parou de procurar.
A certeza é inimiga, é inconveniente, nociva, ela nos faz parar de pensar para cultuar algo.
Os sábios não são os que sabem, mas os que buscam saber, são aqueles que olharão para esse texto e se perguntarão: Será se esse cara está mesmo certo?

terça-feira, 25 de novembro de 2008

XXI

-O que você tem?
-Não sei, um incomodo, talvez pela crueza das coisas.
-Talvez se sinta acuado pela verdade, a ficção te fascina.
-Por certo o que me incomoda não é a verdade em mim, mas o que ela me gasta por dentro, a minha inspiração é roída. Ao mesmo tempo em que parece uma sede de conhecimento é também uma avidez profana.
-Consciência?
-Não... Essa eu já perdi.
-Sua doença é incurável, ela é causada pelos antídotos e remédios que se usa para tratá-la.