quarta-feira, 7 de abril de 2010

Metalinguagem

Não. Não vou postar imagens. Não quero atrair leitores, afinal, isso não é a merda de uma empresa, lê quem tem vontade. Também não vou falar de tendências e tento sair o máximo da critica comum. Não aceito sugestões - pelo menos não aqui - e também não me importo com as críticas construtivas e destrutivas.

Agora: porque tanto tempo sem escrever? ...não sei. Talvez eu estivesse entretido com outras coisas, ou estivesse com medo, já que esse desabafo com as letras põe pra fora coisas que não gostamos de sentir, nos faça descobrir o que infelizmente somos.

Mas no final das contas o que importa mesmo é o extrato bancário.

Won't get fooled again

Ouço o som do nada, o silêncio. Ele, tão surdo me faz bem, tanto que eu deveria tapar os ouvidos toda vez que alguém tentasse me empurrar alguma coisa, fosse uma revista ou uma camiseta. Eu que já fui cego, não sinto prazer em hoje ver o mundo dos adultos, ele é o mundo caótico e apocalíptico que eu criava em minhas brincadeiras de infância, e nas historias que escrevia.

Hoje eu tenho que ouvir minha mãe falar sobre os médicos que ignoram pessoas morrendo na fila do hospital porque estão atendendo seus amiguinhos das farmacêuticas. Sinto impotente, amarrado e torto. Tenho que ver banqueiros simulando joguinhos com toda a humanidade, criando dividas inexistentes e pior: ver pessoas jogando sem saber ao menos o que estão fazendo. Os preconceitos são criados e então o que antes era apenas um material para fazer tecidos, o canhamo, se torna uma 'droga mortal e destrutiva'. Não que isso interessasse o bolso dos grandes empresários, mas é que eles se preocupam demais com o bem-estar da sociedade. Palmas para eles.

Tudo vai ficando tão normal, e tão cotidiano! Dizem que as pessoas acostumam com qualquer coisa a partir de vinte um dias aproximadamente, como se acostumar em pagar por algo que é seu de direito? Como podem engaiolar, vender, engarrafar, a própria natureza? Como se tudo isso tivesse sido obra daquele que vos vende? A arrogância e estupidez é tão grande, que nos negamos a acreditar e ignorando, apenas fechamos os olhos e os ouvidos, já que o som do silêncio é tão belo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Passo os dias

Conversa entre eu e eu mesmo:

-Nunca pense que terminou, se você realmente quer alguma coisa, tem que ir atrás, não pode desistir fácil. Até mesmo porque as vezes damos sorte, conseguimos aquilo que queremos. Entretanto te vejo parado aí, ao invés de tentar, partir pra cima. Você nunca vai conseguir nada apenas sonhando. Você pensa demais.
-É. Me pego viajando por horas depois de acordar, pensando em tudo que poderia ter acontecido ou pode acontecer. Nisso você está certo.
-Cada vez mais percebemos o quão difícil vai ser esquece-la. Não posso ver nada que a lembre que passo a pensar no que quero dize-la, como dizer, tentando imagina-la...
-Às vezes acordo e me olho no espelho, um insight me faz ver o monte de estupidez que eu faço... Somos nós, nossa forma de ser. Tentando guiar o mundo da nossa forma acabamos irritando as pessoas...
-É verdade...
-Fico confuso, não sei o que fazer... Acho que devo seguir meus instintos...
-Eu sempre estou certo.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Aqualung

Meu marca-passo é minha escrita. Quando o psiquê fraqueja, e meus instintos pedem uma droga, ou algo que o valha. Meu marca-passo é a escrita.

Quantas vezes já não me senti tão melhor por essas palavras soltas sem destino, sem objetivo? Palavras que não se eternizam, e se perdem no meio de tanta informação que temos, ideias que apesar de novas e mirabolantes para mim, não tem o menor sentido, e nenhuma originalidade quando vistas por outrem.

Eu, entre a tentativa frustrada de escrever algo que valha e o prazer que sinto em escrever o óbvio, acabo por produzir sobre temas que de tão usados, deixam o rastro de tédio, impossibilitado de criar, sem o benefício dos deuses: a originalidade.

Entretanto é meu marca-passo, é minha 'pedra de Prometheu'. E eu continuarei a reproduzir o trivial até que o copo caia e acabe a festa.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Trilha sonora

É ao som de 'Quadrophenia' que eu me esforço pra pensar em alguma coisa interessante para o primeiro texto do ano. Nada vem a cabeça, um vácuo preenchido por sons que às vezes até me irrita, por outras me confunde, mas sempre me acompanha. Enquanto jogava futebol mais cedo, era ao som de Susie-Q que meus neurônios dançavam.

Pode parecer estranho, e é, mas em todo momento alguma música me preenche e me diz algo. A todo momento o deus do rock se comunica comigo através de alguma canção, alguma letra perdida nos vastos corredores da minha mente, que de súbito me aparecem e revelam seus segredos.

Agora começa a tocar 'I can see for miles', ela me fala algo. Eu ouço. Desligo.

A oração ao deus do rock é no violão, é silenciosa e barulhenta, é louca e contida. Não há porque temer, jovem mancebo, há um violão em seus braços e uma canção em sua mente. Seus dedos se movem na medida certa para que seus labios cuspam a verdade, a vibração é o tom exato que vibra o cosmos.

Depois de orar, eu coloco o violão de lado, a cabeça no travesseiro e vou dormir pensando em algum tema pra outra canção.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Mau cu não tem olho, coisa estranha de ser dita.
Por que então me mandam tomar no olho do cu?
Talvez eu devesse parar de falar cu e usar uma palavra menos ofensiva...
Mas é a palavra ou a ideia de intimidade que é ofensiva?
Ou será que na verdade não é ofensivo, as pessoas que andam sensíveis demais?
Ou será que eu sou desrespeitosa demais?
Talvez eu devesse parar de divagar e fazer algo interessante...
Mas divagar é interessante!
Ou não, às vezes eu não fiz muitas coisas interessantes na vida e ache que coisas imbecis como divagar sejam interessantes.
Ok, vou parar de divagar.
Na verdade acho que já deveria ter parado há muito tempo.

Sobre o que eu estava falando mesmo?

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O passaporte

Ele simplesmente chegou e me contou a verdade, toda a verdade. Eu, cético como era, apenas neguei tudo, obviamente.

"Então beba esse chá", ele insistiu me empurrando uma xícara com um líquido meio cinzento, "ele fará com que não se esqueça dessa vida quando for para uma outra". Eu não bebia pela desconfiança, já que o chá tinha um agradável cheiro, parecia baunilha. Então pensei no que tinha a perder, que não era quase nada visto a situação que eu me encontrava: tinha acordado com a casa em chamas dois dias antes, e por não ter onde ficar me hospedei num hotel na saída da cidade. Não conhecia ninguém que pudesse me ajudar naquela cidade, de família tinha apenas meus pais que moravam no interior. Conheci o homem na rodoviária, enquanto esperava pelo ônibus, e agora fitava-o indeciso entre tomar e não tomar aquilo.

A história era bem estranha, mas tudo que ele dissera era bem interessante. Eu, estudante aplicado das filosofias de buteco, me deparara com uma questão, que apesar de desgastada, nunca tinha sido olhada por tal ponto de vista, não que eu soubesse.

Ele chegou sorrateiro e com um sorriso no canto da boca. Sua barba por fazer, seus óculos escuros e sua jaqueta desgastada davam a impressão de que ele tivera saído do filme 'Motoqueiros selvagens', e a primeira coisa que me disse foi 'Tem fogo?'.

Rapidamente tirei o isqueiro do bolso e o emprestei, tinha parado de fumar há dois meses mas ainda não perdera o hábito de carregar-lo sempre comigo. Ele acendeu e soltou uma baforada no meu rosto, quando percebeu minha cara de desgosto apenas virou-se pro outro lado.

"Você não é muito de falar, né estranho?!", virou-se pra mim com aquele mesmo sorriso, eu retruquei, meio indignado: "É louco?! Como assim!?", ele apenas estendeu a mão com o isqueiro e me devolveu. Continuou a fumar olhando para algum ponto bem distante no teto da rodoviária.
Sem voltar o olhar disse: "Qual foi a ultima vez que morreu?" - "Sim, você é louco.".

Aí ele começou sua história, que eu, apesar de achar absurda, ouvi sem interrompê-lo um instante sequer. Ele falava sobre sonhos, sonhos em que a gente morre. Nesses sonhos, disse ele, temos os últimos resquícios de nossa vida passada, e quando acordamos, ou quando 'terminamos de morrer' na outra vida, passamos para esse universo e ganhamos de presente uma vida inteira a qual acreditamos ter vivido, mas na verdade ela foi criada naquele exato momento, tudo para que o universo continue tranquilamente seu ritmo.

Nesse instante me lembrei que, no dia eu que eu acordei com a casa em chamas, eu tinha sonhado exatamente com isso: eu era um terrorista que explodia as bombas em meu próprio peito em um lugar parecidíssimo com o oriente médio. Percebi que eu estava com a respiração presa e dei um suspiro lento.

"Então um dia eu descobri um chá, uma receita encontrada em velhos livros de magia, que me protegia contra o esquecimento, que segundo o próprio livro era uma dádiva para que não enlouquecêssemos vivendo na eternidade. Esse liquido era portanto o tão sonhado elixir da vida, da eternidade, e poderia nascer e morrer quantas vezes quisesse, poderia ser uma infinidade de pessoas diferentes e em épocas diferentes. Ele dizia já ter tido vinte vidas mais ou menos.

Eu, claro, pensei: "Ele é um louco.", mas fica a curiosidade. Ele parecia ter muita segurança do que falava, ele era realmente seguro. Percebia-se que era uma pessoa experiente, era inteligente e tinha boa conversa, alguem realmente curioso.

Eu titubeei com a pequena xícara na mão que ele me dera, nela ele derramou o chá que trazia em uma garrafinha térmica a tiracolo. Enquanto eu fitava meu reflexo no chá ele me contava o porquê de eu ser o escolhido para saber daquela verdade.
Segundo ele, nos encontramos na sua primeira vida - a que ele se lembrava como sendo a primeira - e fomos grandes amigos, eu morrera assassinado e, depois de ter descoberto aquele elixir, ele me procurara por anos. É que por mais que nascêssemos de novo, nossas aparências quase não mudavam. Então ele tinha visto minha foto no jornal, descobrira que eu era um cronista, mas quando foi me procurar no endereço que lhe deram no jornal, achou apenas uma casa queimada, mas pra sua sorte seus instintos estavam corretos e em 36 horas de espera na rodoviária eu apareci.

Bebi. Era até gostoso. Senti um estranho formigamento e uma sensação de que eu tinha ficado mais leve, mas passou rapidamente. Ele levantou-se, esperando que eu levantasse também com os braços semi-abertos, no qual ele envolveu-me num abraço.

Conversamos muito até a hora de meu ônibus chegar, ele me contou de suas experiências passadas, mas ficava quase sempre contando sobre nossa amizade e sobre o que fazia em sua atual vida. Eu também lhe contei o que eu fazia, contei que além de escrever para um jornal eu estava escrevendo um livro de crônicas e que até minha casa pegar fogo, eu estava juntando dinheiro pra comprar uma moto.

Sorrindo, nos despedimos quando finalmente chegou a hora de eu ir pra casa. Prometemos que nos veríamos de novo, e então me virei pra ir embora. Ruminei aquilo por todo o caminho, e quando cheguei no sítio onde moravam meus pais, eu passava dias sentado na varanda tentando me concentrar pra escrever algo, mas apenas aquela historia em vinha na cabeça.

Então sorri. Tinha entendido tudo, agora tudo estava bem claro. Passei os meses seguintes em claro escrevendo sem parar, toda a historia, tudo que me lembrava e tudo que tinha sido contado, meus lápis corria incessante até que o ultimo ponto fora colocado.

Escrevi uma carta simples de despedida, sem nada explicar, apenas com o desejo de que meu livro fosse publicado, enterrei na beira da estrada algumas coisas que eu tinha mais apego e um pouco de dinheiro, depois eu me tranquei no quarto e dei dois tiros na cabeça.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O pintor

Vocês são um bando de quadrados! Não conseguem compreender que cada pessoa nasce com uma coisa diferente no sangue? Eu nasci assim! 'Eu nasci com o pé na estrada e a cabeça na lua!'. Por mais que tentem, não conseguem fazer nada mais que adiar o inevitável, atrasar o ritmo das coisas e criar mais expectativa, podem prender, enjaular. Matar nunca.

Há mais ou menos uns quatro meses eu descobri o que era viver sem sonhar, eu vivia sem sonhar, descobri que o ser humano que não sonha está morto, ou no máximo compõe um cenário da natureza, de uma pintura, emprestando seu corpo e vagando sua mente por coisas banais.
Gerações e mais gerações que nascem e morrem pelo mesmo objetivo, lutando pelas mesmas coisas que seus ancestrais, com medo de subir pela escada e pegar o precioso cacho de bananas. São pessoas mortas.

Enquanto eu vagar, por todo o tempo que for necessário, pelas ruas dessa empoeirada cidade, saibam que minha cabeça há muito tempo que nao está aqui, saibam que eu estou tão longe quanto podem imaginar, e quando menos esperarem nao mais estarei. Quando menos esperarem eu deixarei de ser apenas parte do cenário e me tornarei o artista.