quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Tropa da Elite

E a gente continua a vibrar quando ouve que o batalhão de operações da policia especial está para invadir uma nova favela. A televisão, principalmente, faz parecer que tudo é apenas um filme, e que depois que subirem os créditos na telona o mundo vai ser feito um jardim florido. Esqueceram-se dos direitos humanos? Que surto de patriotismo surge assim de repente?

Não que eu seja um dos grandes defensores dessa grande piada que vem sendo contada há 62 anos, aliás, a ideia é linda, mas o que vem acontecendo mostra o quanto ela é volátil.

Como futura sede de dois grandes eventos mundiais, o estado se desespera é vê que terá que dar conta de um problema, que não foi resolvido em décadas, em quatro anos. E nesse ponto a mídia entra, fazendo com que além de apoiarmos uma carnificina que mais parece um filme do Rambo, idolatremos aqueles que não fazem mais que sua obrigação diária.

Não desmereço os policiais, que trabalham arduamente para 'nos proteger', mas é que nessa carência tupiniquim por quem receba 'nossas' orações, qualquer um que aparecer serve. Aí vira herói.

O crime não está só na favela. O tráfico é a revolta popular banalizada é a demonstração de que algo vai errado dentro da casa de cada brasileiro, que vê tudo passando nessa caixinha mágica todo dia à noite, mas continua pensando que não passa de um filme.

sábado, 2 de outubro de 2010

Cotidiano

Bastou um pensamento e lá estava eu, fazendo tudo que ela pedia. Não sei porque fazia, só sei que fazia. E de repente eu ria, ria. Eu parecia estar feliz.

Acordo e já era hora de trabalhar. O som do despertador era um dos sons que mais me irritava. Na boca um desejo de tomar suco de manga e uma preguiça incontida de toda aquela rotina. Não tinha nada naquele dia que me desse tesão, avidez ou vontade para levantar. Eu podia ficar ali deitado por todo o tempo. Sei lá, inventava uma desculpa para poder não ir trabalhar, a faculdade depois eu estudava o que ia perder naquele dia. Iria fazer isso até que empurrasse um semestre, um ano. Não ia trabalhar hoje, mas cada dia eu ia ter a mesma preguiça. Eu conhecia aquelas manhãs de longa data. Levantei.

Mãos nos olhos, ainda querendo se fechar. O sonho vivo na cabeça e aquela sensação que ele deixara, algo estranho. Mais alguns minutos sentado, naquela posição de pensador com sono.
Vinham pensamentos em turbilhão, de repente me lembro de um e-mail que tinha que mandar. Sento-me com pressa no computador e mando. Não sei nem porque fizera aquilo. Mas agora já estava feito e eu poderia voltar a dormir em paz. Deito-me e lembro que tenho que acordar, daqui a pouco acordo, penso com meus botões, não! tem que ser agora!, mas agora que hora?. O relógio marcou vinte minutos de pura enrolação. Estava calor. Levantei e pensei que o chão poderia ser uma boa para refrescar. Deitar um pouquinho não faz mal a ninguém.

E aquela prova de redes, é que dia mesmo? Puxa, já é essa semana, tenho que estudar. Quais os dias que eu vou estudar? Hoje! porque se eu não começar hoje eu não começo mais dia nenhum. E que horas? Agora! Senão tambem não faço isso em hora nenhuma também. Mas que o chão está tão fresquinho...

Encosto a mão na cabeça e lembro de alguém. Engraçado como o tempo passa rápido e a gente nem vê, esquece as pessoas, esquece as coisas. Era uma memória que apesar de tudo eu guardaria com carinho... Espera, eu tinha que estar pensando em acordar, levantar. Foco!
Pois bem, prometo que a partir de agora só penso em levantar... É tão cruel essa vida! São apenas sete e meia da manhã e eu tenho que levantar. Quem me dera ter cinco anos de novo.

Sento no chão e começo a pensar em como vou fazer as coisas no meu dia e, de repente, levanto, de sopetão, corro para o chuveiro e entro na água gelada. Tem que ser assim! Tem que ter atitude senão nada acontece... que bela atitude, hein! demorou só meia hora... Mas ainda bem que configuro meu despertador para meia hora antes. Antes eram só cinco minutos, mas meu eu sonambulo de cinco minutos atrás sempre descobria esse pequeno artifício que eu usava sempre.

A água gelada corria no corpo arrancando calafrios. Sai me enxugando e vesti a roupa. Enquanto tomo café penso no quanto é estranho minha mãe em casa ainda a essa hora.

-Mas filho, pra que acordar tão cedo no sábado?

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Pela evolução que pensamos ter

Estava hoje de manhã pensando quais seriam os motivos das revoluções e, diferente de todas as outras vezes, lembrei de escrever o que pensara.

Pensemos primeiro em todas as inovações e todas as 'otimizações' que acontecem. Eu olhava para o design de um carro e pensava: 'se ele é assim, deve ser porque é o ápice do que o ser humano já inventou', claro que comparando com gerações passadas de automóveis. E da mesma forma, fiz uma série de comparações, imaginando que tudo que temos em mão atualmente é resultado de pesquisas e testes que nos dão o melhor e que estamos sempre progredindo. Pensamento errado.

Logo depois de tal divagação, comecei a lembrar de todas aquelas 'conspirações' ou apenas busca obsessiva por dinheiro que tem os poderosos. Me dei conta que tudo não estava daquele jeito não porque era o auge da engenharia ou matemática, e sim porque era o que dava mais dinheiro. Tudo é otimizado pra dar mais dinheiro.

Daí me lembrei das revoluções, e sua verdadeira causa: nos dar aquilo que pensamos ter. E Aldous Huxley estava certo em dizer que o humano não perderia essa guerra pela dor, mas sim pelo prazer, hoje temos tantos entorpecentes e entretenimento, que esquecemos de olhar para o que realmente temos, se isso realmente é o bom, e acabamos por acatar o que nos foi dito.

E nessa era a revolução está em nós, é simplesmente buscar a evolução material verdadeira, encontrar a própria evolução, e não aceitar mais que entorpeçam nossas cabeças.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O estrangeiro - parte 1

Ele chega e se depara com coisas estranhas. Era de se esperar: mas analisa tudo minunciosamente.
Chegou assim do nada, e sem ninguem ver. Chegou a noite, quando todos dormiam. Todos mesmo.
E quando chegou a primeira coisa que estranhou foi o que via pela janela das casas. Os humanos tinham um costume estanho, o de ficar sentados em frente a uma caixinha luminosa sem falar nada, mesmo que estivessem ao lado de varias pessoas, preferia sempre o que estava dentro da caixinha.

O estrangeiro pensou que o que tinha dentro da caixinha poderia dar sabedoria, riquezas, então procurou algo mais para se distrair. outra coisa estranha que viu foi que algumas pessoas ficavam sentadas no chão das calçadas, que é como chamavam por onde passavam, pedindo coisas para outras, mas que a maioria das outras pessoas nem reparava. Devia ser um ritual muito dificil aquele de ter que pedir coisas redondinhas e as pessoas não conseguirem ve-lo. Percebeu com o tempo que os seres humanos eram um pouco cegos. Uma vez uma pessoa tomou uma coisa de outra, e foram poucos os que perceberam, deveria ser uma coisa importante, apesar de pequena, pois a mulher - como chamavam aqueles humanos geralmente de cabelo maior e com o que chamavam de seios - chorou bastante depois de te-la perdido.

Reparou tambem que algumas pessoas ficavam pelas ruas falando alto e pedindo votos que, com certeza, deveriam ser mais faceis que aquela coisinha redondinha, já que os caras na calçada quase não eram vistos - descobriu que eles se chamavam mendigos - e esses, pelo contrario, eram as vezes aplaudidos. Mas reparou certo tom de falsidade em sua fala, já que falava muita coisa impossivel logicamente... não importa, os humanos deviam gostar dessa coisa... tradições, rituais, sabe como é.

O estrangeiro então deitou-se numa praça ao anoitecer e dormiu...


segunda-feira, 12 de abril de 2010

Infinitivo

Nascer.
Se foder.
Aprender a falar.
Aprender a andar.
Entrar na escola.
Se foder.
Terminar o primario.
Ser um filho exemplar.
Terminar o fundamental.
Dar um beijo.
Se foder.
Terminar o ensino médio.
ter amigos.
foder com alguem.
Vestibular.
Se foder.
Faculdade.
Foder.
Se foder.
Emprego.
Se foder.
Demitido.
Se foder.
Se foder.
Outro emprego.
terminar a faculdade.
se casar.
Se foder.
Amar.
ter filhos.
criar os filhos.
ter uma casa.
ter um carro.
pagar as prestações.
se foder.
Aposentar.
se foder.
viajar.
telefonar para os filhos.
brincar com os netos.
ir pro hospital.
morrer.
ser feliz...

domingo, 11 de abril de 2010

Título

Está chovendo açucar! Os que não creem que saiam à janela e contemplem o espetáculo, contemplem também os pequenos carneiros alaranjados que dançam ao redor da fonte, e não se esqueçam dos óculos. O sol está muito forte apesar da chuva.

E tem gelo nas minhas botas, botas castigadas pela longa caminhada para pasárgada, que fazem meu nariz entupir e meu falar fica então engraçado. Eis que surgem dois homens que conversam comigo e riem. Apesar de eles estarem longe, dá pra ver que o passarinho no ombro de um deles está doente. Pobre bichinho: não há hospitais por aqui. É um dos motivos de eu estar me mudando.

Bem... por hora tenho que partir. Adeus pros que ficam.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Metalinguagem

Não. Não vou postar imagens. Não quero atrair leitores, afinal, isso não é a merda de uma empresa, lê quem tem vontade. Também não vou falar de tendências e tento sair o máximo da critica comum. Não aceito sugestões - pelo menos não aqui - e também não me importo com as críticas construtivas e destrutivas.

Agora: porque tanto tempo sem escrever? ...não sei. Talvez eu estivesse entretido com outras coisas, ou estivesse com medo, já que esse desabafo com as letras põe pra fora coisas que não gostamos de sentir, nos faça descobrir o que infelizmente somos.

Mas no final das contas o que importa mesmo é o extrato bancário.

Won't get fooled again

Ouço o som do nada, o silêncio. Ele, tão surdo me faz bem, tanto que eu deveria tapar os ouvidos toda vez que alguém tentasse me empurrar alguma coisa, fosse uma revista ou uma camiseta. Eu que já fui cego, não sinto prazer em hoje ver o mundo dos adultos, ele é o mundo caótico e apocalíptico que eu criava em minhas brincadeiras de infância, e nas historias que escrevia.

Hoje eu tenho que ouvir minha mãe falar sobre os médicos que ignoram pessoas morrendo na fila do hospital porque estão atendendo seus amiguinhos das farmacêuticas. Sinto impotente, amarrado e torto. Tenho que ver banqueiros simulando joguinhos com toda a humanidade, criando dividas inexistentes e pior: ver pessoas jogando sem saber ao menos o que estão fazendo. Os preconceitos são criados e então o que antes era apenas um material para fazer tecidos, o canhamo, se torna uma 'droga mortal e destrutiva'. Não que isso interessasse o bolso dos grandes empresários, mas é que eles se preocupam demais com o bem-estar da sociedade. Palmas para eles.

Tudo vai ficando tão normal, e tão cotidiano! Dizem que as pessoas acostumam com qualquer coisa a partir de vinte um dias aproximadamente, como se acostumar em pagar por algo que é seu de direito? Como podem engaiolar, vender, engarrafar, a própria natureza? Como se tudo isso tivesse sido obra daquele que vos vende? A arrogância e estupidez é tão grande, que nos negamos a acreditar e ignorando, apenas fechamos os olhos e os ouvidos, já que o som do silêncio é tão belo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Passo os dias

Conversa entre eu e eu mesmo:

-Nunca pense que terminou, se você realmente quer alguma coisa, tem que ir atrás, não pode desistir fácil. Até mesmo porque as vezes damos sorte, conseguimos aquilo que queremos. Entretanto te vejo parado aí, ao invés de tentar, partir pra cima. Você nunca vai conseguir nada apenas sonhando. Você pensa demais.
-É. Me pego viajando por horas depois de acordar, pensando em tudo que poderia ter acontecido ou pode acontecer. Nisso você está certo.
-Cada vez mais percebemos o quão difícil vai ser esquece-la. Não posso ver nada que a lembre que passo a pensar no que quero dize-la, como dizer, tentando imagina-la...
-Às vezes acordo e me olho no espelho, um insight me faz ver o monte de estupidez que eu faço... Somos nós, nossa forma de ser. Tentando guiar o mundo da nossa forma acabamos irritando as pessoas...
-É verdade...
-Fico confuso, não sei o que fazer... Acho que devo seguir meus instintos...
-Eu sempre estou certo.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Aqualung

Meu marca-passo é minha escrita. Quando o psiquê fraqueja, e meus instintos pedem uma droga, ou algo que o valha. Meu marca-passo é a escrita.

Quantas vezes já não me senti tão melhor por essas palavras soltas sem destino, sem objetivo? Palavras que não se eternizam, e se perdem no meio de tanta informação que temos, ideias que apesar de novas e mirabolantes para mim, não tem o menor sentido, e nenhuma originalidade quando vistas por outrem.

Eu, entre a tentativa frustrada de escrever algo que valha e o prazer que sinto em escrever o óbvio, acabo por produzir sobre temas que de tão usados, deixam o rastro de tédio, impossibilitado de criar, sem o benefício dos deuses: a originalidade.

Entretanto é meu marca-passo, é minha 'pedra de Prometheu'. E eu continuarei a reproduzir o trivial até que o copo caia e acabe a festa.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Trilha sonora

É ao som de 'Quadrophenia' que eu me esforço pra pensar em alguma coisa interessante para o primeiro texto do ano. Nada vem a cabeça, um vácuo preenchido por sons que às vezes até me irrita, por outras me confunde, mas sempre me acompanha. Enquanto jogava futebol mais cedo, era ao som de Susie-Q que meus neurônios dançavam.

Pode parecer estranho, e é, mas em todo momento alguma música me preenche e me diz algo. A todo momento o deus do rock se comunica comigo através de alguma canção, alguma letra perdida nos vastos corredores da minha mente, que de súbito me aparecem e revelam seus segredos.

Agora começa a tocar 'I can see for miles', ela me fala algo. Eu ouço. Desligo.

A oração ao deus do rock é no violão, é silenciosa e barulhenta, é louca e contida. Não há porque temer, jovem mancebo, há um violão em seus braços e uma canção em sua mente. Seus dedos se movem na medida certa para que seus labios cuspam a verdade, a vibração é o tom exato que vibra o cosmos.

Depois de orar, eu coloco o violão de lado, a cabeça no travesseiro e vou dormir pensando em algum tema pra outra canção.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Mau cu não tem olho, coisa estranha de ser dita.
Por que então me mandam tomar no olho do cu?
Talvez eu devesse parar de falar cu e usar uma palavra menos ofensiva...
Mas é a palavra ou a ideia de intimidade que é ofensiva?
Ou será que na verdade não é ofensivo, as pessoas que andam sensíveis demais?
Ou será que eu sou desrespeitosa demais?
Talvez eu devesse parar de divagar e fazer algo interessante...
Mas divagar é interessante!
Ou não, às vezes eu não fiz muitas coisas interessantes na vida e ache que coisas imbecis como divagar sejam interessantes.
Ok, vou parar de divagar.
Na verdade acho que já deveria ter parado há muito tempo.

Sobre o que eu estava falando mesmo?

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O passaporte

Ele simplesmente chegou e me contou a verdade, toda a verdade. Eu, cético como era, apenas neguei tudo, obviamente.

"Então beba esse chá", ele insistiu me empurrando uma xícara com um líquido meio cinzento, "ele fará com que não se esqueça dessa vida quando for para uma outra". Eu não bebia pela desconfiança, já que o chá tinha um agradável cheiro, parecia baunilha. Então pensei no que tinha a perder, que não era quase nada visto a situação que eu me encontrava: tinha acordado com a casa em chamas dois dias antes, e por não ter onde ficar me hospedei num hotel na saída da cidade. Não conhecia ninguém que pudesse me ajudar naquela cidade, de família tinha apenas meus pais que moravam no interior. Conheci o homem na rodoviária, enquanto esperava pelo ônibus, e agora fitava-o indeciso entre tomar e não tomar aquilo.

A história era bem estranha, mas tudo que ele dissera era bem interessante. Eu, estudante aplicado das filosofias de buteco, me deparara com uma questão, que apesar de desgastada, nunca tinha sido olhada por tal ponto de vista, não que eu soubesse.

Ele chegou sorrateiro e com um sorriso no canto da boca. Sua barba por fazer, seus óculos escuros e sua jaqueta desgastada davam a impressão de que ele tivera saído do filme 'Motoqueiros selvagens', e a primeira coisa que me disse foi 'Tem fogo?'.

Rapidamente tirei o isqueiro do bolso e o emprestei, tinha parado de fumar há dois meses mas ainda não perdera o hábito de carregar-lo sempre comigo. Ele acendeu e soltou uma baforada no meu rosto, quando percebeu minha cara de desgosto apenas virou-se pro outro lado.

"Você não é muito de falar, né estranho?!", virou-se pra mim com aquele mesmo sorriso, eu retruquei, meio indignado: "É louco?! Como assim!?", ele apenas estendeu a mão com o isqueiro e me devolveu. Continuou a fumar olhando para algum ponto bem distante no teto da rodoviária.
Sem voltar o olhar disse: "Qual foi a ultima vez que morreu?" - "Sim, você é louco.".

Aí ele começou sua história, que eu, apesar de achar absurda, ouvi sem interrompê-lo um instante sequer. Ele falava sobre sonhos, sonhos em que a gente morre. Nesses sonhos, disse ele, temos os últimos resquícios de nossa vida passada, e quando acordamos, ou quando 'terminamos de morrer' na outra vida, passamos para esse universo e ganhamos de presente uma vida inteira a qual acreditamos ter vivido, mas na verdade ela foi criada naquele exato momento, tudo para que o universo continue tranquilamente seu ritmo.

Nesse instante me lembrei que, no dia eu que eu acordei com a casa em chamas, eu tinha sonhado exatamente com isso: eu era um terrorista que explodia as bombas em meu próprio peito em um lugar parecidíssimo com o oriente médio. Percebi que eu estava com a respiração presa e dei um suspiro lento.

"Então um dia eu descobri um chá, uma receita encontrada em velhos livros de magia, que me protegia contra o esquecimento, que segundo o próprio livro era uma dádiva para que não enlouquecêssemos vivendo na eternidade. Esse liquido era portanto o tão sonhado elixir da vida, da eternidade, e poderia nascer e morrer quantas vezes quisesse, poderia ser uma infinidade de pessoas diferentes e em épocas diferentes. Ele dizia já ter tido vinte vidas mais ou menos.

Eu, claro, pensei: "Ele é um louco.", mas fica a curiosidade. Ele parecia ter muita segurança do que falava, ele era realmente seguro. Percebia-se que era uma pessoa experiente, era inteligente e tinha boa conversa, alguem realmente curioso.

Eu titubeei com a pequena xícara na mão que ele me dera, nela ele derramou o chá que trazia em uma garrafinha térmica a tiracolo. Enquanto eu fitava meu reflexo no chá ele me contava o porquê de eu ser o escolhido para saber daquela verdade.
Segundo ele, nos encontramos na sua primeira vida - a que ele se lembrava como sendo a primeira - e fomos grandes amigos, eu morrera assassinado e, depois de ter descoberto aquele elixir, ele me procurara por anos. É que por mais que nascêssemos de novo, nossas aparências quase não mudavam. Então ele tinha visto minha foto no jornal, descobrira que eu era um cronista, mas quando foi me procurar no endereço que lhe deram no jornal, achou apenas uma casa queimada, mas pra sua sorte seus instintos estavam corretos e em 36 horas de espera na rodoviária eu apareci.

Bebi. Era até gostoso. Senti um estranho formigamento e uma sensação de que eu tinha ficado mais leve, mas passou rapidamente. Ele levantou-se, esperando que eu levantasse também com os braços semi-abertos, no qual ele envolveu-me num abraço.

Conversamos muito até a hora de meu ônibus chegar, ele me contou de suas experiências passadas, mas ficava quase sempre contando sobre nossa amizade e sobre o que fazia em sua atual vida. Eu também lhe contei o que eu fazia, contei que além de escrever para um jornal eu estava escrevendo um livro de crônicas e que até minha casa pegar fogo, eu estava juntando dinheiro pra comprar uma moto.

Sorrindo, nos despedimos quando finalmente chegou a hora de eu ir pra casa. Prometemos que nos veríamos de novo, e então me virei pra ir embora. Ruminei aquilo por todo o caminho, e quando cheguei no sítio onde moravam meus pais, eu passava dias sentado na varanda tentando me concentrar pra escrever algo, mas apenas aquela historia em vinha na cabeça.

Então sorri. Tinha entendido tudo, agora tudo estava bem claro. Passei os meses seguintes em claro escrevendo sem parar, toda a historia, tudo que me lembrava e tudo que tinha sido contado, meus lápis corria incessante até que o ultimo ponto fora colocado.

Escrevi uma carta simples de despedida, sem nada explicar, apenas com o desejo de que meu livro fosse publicado, enterrei na beira da estrada algumas coisas que eu tinha mais apego e um pouco de dinheiro, depois eu me tranquei no quarto e dei dois tiros na cabeça.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O pintor

Vocês são um bando de quadrados! Não conseguem compreender que cada pessoa nasce com uma coisa diferente no sangue? Eu nasci assim! 'Eu nasci com o pé na estrada e a cabeça na lua!'. Por mais que tentem, não conseguem fazer nada mais que adiar o inevitável, atrasar o ritmo das coisas e criar mais expectativa, podem prender, enjaular. Matar nunca.

Há mais ou menos uns quatro meses eu descobri o que era viver sem sonhar, eu vivia sem sonhar, descobri que o ser humano que não sonha está morto, ou no máximo compõe um cenário da natureza, de uma pintura, emprestando seu corpo e vagando sua mente por coisas banais.
Gerações e mais gerações que nascem e morrem pelo mesmo objetivo, lutando pelas mesmas coisas que seus ancestrais, com medo de subir pela escada e pegar o precioso cacho de bananas. São pessoas mortas.

Enquanto eu vagar, por todo o tempo que for necessário, pelas ruas dessa empoeirada cidade, saibam que minha cabeça há muito tempo que nao está aqui, saibam que eu estou tão longe quanto podem imaginar, e quando menos esperarem nao mais estarei. Quando menos esperarem eu deixarei de ser apenas parte do cenário e me tornarei o artista.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Em nome do pai

Por certo deus se enganara ao entregar aquela tarefa a ele: nunca mataria seu próprio filho, e por ser uma entidade superior e onisciente deveria saber daquilo. Mas tinha sido aquilo mesmo. Em sonhos, e de muitas outras formas, o anjo tinha lhe enviado a mensagem e a vontade do todo poderoso a fim de testar a fé daquela miserável alma servidora.

A princípio pensou em tentar se esconder, enganá-lo de alguma forma, maquinou, e depois sentiu vergonha, até porque deus tinha visto tudo aquilo em seus pensamentos. Então orou e pediu perdão. Era tudo tão difícil, sua criança tinha então nove anos, menino inteligente, cabelos castanhos e parecia ter futuro bom lidando com os números. A mãe, que morrera no parto, lhe deixou de herança seus olhos verdes e inocentes, além de alguns milhões. Ela era de uma família abastada e o futuro do garoto estava garantido se não fosse aquele pequeno porém.

O pai sempre foi um grande devoto, assim como a mãe, e ambos também instruíram o menino sempre pelo caminho da fé. Acreditavam na bondade e na generosidade do deus celeste, mas agora o pai começava a ter medo, começava a vacilar em sua fé. Lembrou-se então da história de Abraão, ficou por alguns momentos mais tranquilo, mas logo depois começou a tremer novamente. O anjo tinha falado que o sacrifício deveria ocorrer logo, dentro de dois dias... já tinha se passado 36 horas desde então. As mãos suavam, e seu pensamento era sobre como seria, o que usaria para matar o garoto. Não iria mais vacilar em sua fé. Não. Deus deveria ter reservado um futuro diferente para aquela criança, e para ele. Não vacilaria.

Arrumou tudo que precisava, pôs a criança para dormir pela ultima vez e, ao nascer do sol, o levou para uma estrada na saída da cidade, parou o carro e explicou tudo ao garoto.

Entre soluços e gemidos, o garoto nada fazia, parecia se conformar com tudo, e deu mais segurança ao seu algoz. Foram para longe da estrada, pelo mato. O coração dos dois batia acelerado, mas a criança tinha tido uma educação religiosa exemplar, e sabia que se deus assim queria, assim teria de ser. Subiu com o pai em uma rocha, enquanto ele desembainhava a faca.

O garoto se deitou. A lamina brilhava refletindo o sol da manhã enquanto ia de encontro a fina garganta. Fez-se o primeiro sulco e por ele escorreu a primeira gota de sangue. A medida que a faca afundava aumentava o terror no rosto da criança, que com os olhos esbugalhados levou a mão no braço do pai como se tentasse reagir e impedir aquele infanticídio. Mas era tarde, e suas mãos frágeis e trêmulas não tiveram força para tal, a boca fazia algum som inaudível, enquanto o sangue no pescoço borbulhava e seu corpo pequeno e frágil tinha um súbito e passageiro ataque epilético.

Depois de toda aquela cena o pai ainda contemplou o corpo inerte do filho por alguns instantes antes de, com lágrimas nos olhos, cavar a sepultura do menino. Enterrou o pequeno e saiu sem olhar para trás. O percurso até a casa foi um dos mais longos de toda sua vida.

Duas semanas depois a manchete de todos os jornais era um brutal assassinato, e mostrava a foto do homem que tinha matado o filho a sangue frio para receber a herança milionária de sua esposa.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Enforcado

O baque surdo me acorda
e a corda suja balança
e a criança discorda
da minha falta de esperança

E o que eu vejo são olhares
que muito estão distantes
e que ainda são milhares
a me olhar a todo instante

Maré

É como se esse turbilhão de pensamentos jamais fosse passar. Às vezes divago sem saber em que estou esperando, incauto e desprotegido, não terei mais minha sanidade de volta?

É como aquela criança que solta a mão dos pais e se perde na feira, assim somos nós que vivemos à espera de sabe-se lá o que, agarrados com unhas e dentes do restante de objetividade que resta, no materialismo e em tudo que seja palpável e presente. Ainda assim consumimos tempo de menos com o trabalho, fazendo compras e assistindo a tv, pois esse nosso inesgotável ópio é o que nos resta de esperança.

Talvez seja a melhor alternativa investir em uma carreira profissional, de preferencia computação. Talvez seja mais interessante eu começar a pensar mais no modelo de carro, sonhar com meu Porshe e com uma mansão. Talvez eu deva me esforçar pra sorrir e segurar minhas gargalhadas. Ou talvez eu apenas deva acordar pra realidade.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Penso que penso

Aí vêm me dizer que estou errado. Nem sabem o que eu penso!
Na verdade eu sei que estou errado, sempre estamos, não é mesmo?
Eu caminho pelos corredores da minha mente tentando me conhecer e acaba acontecendo o contrário, disso eu tiro a lição: sou incompreensível. Acho que todos os seres humanos o são.
Por que então muitas vezes temos a pretensão de conhecer outra pessoa ou até mesmo desejar ser compreendido? Por que perdemos nosso tempo e nos perdemos de nós mesmos tentando encontrar outra pessoa num vazio morto de carne e pêlos, um obstáculo às almas.
Cada vez mais busco ideias concisas e lineares em vez da tão tradicional divagação e flutuação de tudo que me vem na cabeça, é ao som de reggae que escrevo que não vou mais divagar, e escrevo isso divagando, como quem flutua em leite. Eu devo ter tetraidrocanabinol na veia, só pode.
E o pior é que às vezes eu ainda tento ter sentido.
E as pessoas sempre falando que eu estou errado, sendo que nem conseguem me compreender.
Nem eu mesmo consigo, o pensamento é mais rápido que os dedos e quando eu penso, o cursor já nao acompanha mais o que eu pensara, já era: ideia perdida.
Eu tenho sonhado com muitas coisas estranhas, que revivem sensações, eu descobri que nao me conheço quando sequer consegui entender essas sensações. Quando eu as entender eu limpo a bunda com elas.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Amigos postiços: tem coisa melhor que amigos postiços?
Eles te fazem pensar que você é popular, eles conversam com você sobre assuntos pra lá de interessantes, e sequer implicam com você se fala qualquer merda ou o ofende. São realmente incríveis. O que mais me estranha é que eles sempre sorriem e te convidam pra um encontro que nunca dá certo, e ainda, tem sempre alguma coisa pra fazer e sempre algum assunto pendente com você.
Outro dia passei por um que deu um tapinha nas minhas costas e disse que a gente precisava se ver mais, e eu o convidei para irmos em algum bar tomar alguma coisa, ele disse que estava sem tempo mas que qualquer dia a gente ia. Ia nada. A gente no máximo se encontra mais umas vezes e fala a mesma bosta, e pior é que às vezes eu até acredito que a gente possa ser amigo. Um a menos pra encher meu saco, ou pra entupir a agenda do celular. Tenho alguns Daniéis e outra penca de Lucas na agenda e não conheço a metade.
Ainda bem que tenho uma porção de amigos chatos e sem o que fazer que me acompanham em quase tudo. Até porque eu acho uma chateação ter que ficar agradando desconhecidos só pra parecer popular.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

À morte:

Um dia você há de vir, nós duas sabemos. Não que isso me dê o direito de pedir alguma coisa, mas eu sou uma humana abusada e sem limites. Pedirei.
Quando você vier, que não venha lenta e calma. Venha súbita e turbulenta, à imagem da minha vida.
Que eu saiba ou sinta algum tempo antes, pois as devidas providências devem ser tomadas, cheiradas, fumadas e fodidas.
Que não venha em vão!, pois em vão basta minha vida...
Que não venha dolorosa, pois dolorosa já foi a vida.
Que venha!, eu peço; venha vermelha, sangrenta e em público! Venha raivosa, amarga, doce! Venha como a cereja no topo, ou como o barulho da colher no fundo do prato! Venha, eu sei que seremos amigas. Pois se fui inimiga da vida a ponto de desejar-te, existirá amizade no fim do túnel.